15/09/2008

1960, o Levitan, cujo ingrediente principal era a taurina, um estimulante mais potente que a cafeína. Mateschitz percebeu o potencial de lançar bebida

Bebidas energéticas podem causar alcoolismo
Maria Lúcia Formigoni aponta para o risco de jovens que consomem energéticos
Esta história começa em 1982, quando o executivo austríaco Dietrich Mateschitz, ao visitar a Tailândia, descobriu a Krating Daeng, uma bebida energética muito doce produzida pela empresa tailandesa T.C. Pharmaceuticals. A Krating Daeng era bastante consumida na Ásia por caminhoneiros, pois os ajudava a permanecer acordados ao dirigir à noite. A Krating Daeng, por sua vez, era baseado num energético japonês criado nos anos 1960, o Levitan, cujo ingrediente principal era a taurina, um estimulante mais potente que a cafeína. Mateschitz percebeu o potencial de lançar bebidas energéticas no Ocidente.

Em 1984, criou o Red Bull, produto menos doce que o original asiático e que foi lançado no mercado alemão em 1987. Após conquistar a Europa, o Red Bull desembarcou nos Estados Unidos em 1997, onde hoje detém 50% de participação de mercado. Em 2006, mais de 3 bilhões de latinhas de Red Bull foram vendidas em todo o mundo - e Mateschitz ficou bilionário.

Agora a parte ruim da história. O público-alvo do Red Bull e de seus concorrentes são os jovens. Os energéticos fazem sucesso entre eles porque são estimulantes. Quando ingeridos juntamente com bebidas alcoólicas, tendem a mascarar a sensação de embriaguez, o que pode prolongar a balada. “Os jovens dizem que ficam mais espertos, menos sonolentos. Mas é uma sensação falsa, subjetiva”, afirma Maria Lucia Souza-Formigoni, da Escola Paulista de Medicina, em São Paulo. “Do ponto de vista da coordenação motora, estão bêbados. Um energético não é nada mais do que uma bela xícara de café expresso. O que tem de diferente de uma coca-cola?”Maria Lucia estuda a relação dos energéticos com o consumo de bebidas alcoólicas desde 2004. Ao realizar testes com camundongos, a pesquisadora descobriu que as cobaias tratadas com energéticos se tornaram, com o passar do tempo, mais resistentes à ingestão de álcool. Esta conclusão levou imediatamente à seguinte hipótese: será que o consumo generalizado de energéticos pelos jovens estaria aumentando a tolerância ao álcool entre aqueles que bebem, fazendo-os beber mais? Indo além, será que jovens com baixa tolerância às bebidas alcoólicas, aqueles que não bebem porque ficam com sono, não estariam passando a consumir mais álcool do que antes graças aos energéticos, que têm o poder de mantê-los despertos? Se a hipótese for verdadeira, a conseqüência direta seria o aumento do consumo de bebida entre os jovens e, por tabela, o aumento nos casos de alcoolismo. De fato, o consumo de bebidas alcoólicas na Região Sudeste subiu de 74,5% para 84,2% entre os jovens de 18 a 24 anos, entre 2001 e 2005. Mais preocupante: apesar de ilegal, o consumo entre os menores de idade, na faixa que vai dos 10 aos 17 anos, aumentou de 53,7% para 60,8%. Os dados são do Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil, de 2005, da Secretaria Nacional Antidrogas. Resta saber se este aumento está associado ao consumo de energéticos.Neste momento, Maria Lucia procura realizar com voluntários o mesmo teste feito com cobaias. O objetivo é saber se o consumo de energéticos nos humanos também aumenta a tolerância ao consumo de álcool, o que levaria a um aumento no alcoolismo. “Não estou dizendo que isso vai acontecer”, diz Maria Lucia. “Mas a possibilidade existe”. Fonte: Época